Minha primeira viagem meteorológica

Ontem (18/06/2026) participei do primeiro dia da VI Reunião de Análise e Previsão Climática para o Nordeste do Brasil e do I Encontro Regional sobre El Niño e seus Efeitos Multissetoriais.

Talvez este seja o primeiro registro oficial de uma nova temporada dessas minhas viagens — matemáticas ou não.

Por muitos anos, encontrei a Matemática principalmente nos livros, nos teoremas, na lógica, nos problemas clássicos, nos sistemas de classificação e nas estruturas — rubikianas ou não — que tanto me fascinam. E, naturalmente, em tudo o mais que consegui associar a ela ao longo do caminho.

Essa busca acabou me levando por bibliotecas, enciclopédias, museus, livros didáticos, projetos editoriais, histórias de matemáticos, quebra-cabeças, algoritmos, calendários e inúmeras outras formas de organizar e compreender a realidade.

Agora estou descobrindo uma nova região desse território.

Uma região que se revela na observação das nuvens, no estudo dos ventos, no acompanhamento dos oceanos, na compreensão de secas, enchentes e eventos extremos, e na tentativa de entender os impactos que tudo isso produz sobre a vida humana — e sobre a vida em geral.

Tenho pensado, inclusive, que esta talvez seja uma das aplicações mais “quentes” da Matemática. E talvez também uma das mais vivas.

Durante muito tempo imaginei que esse papel pertencesse à economia. Afinal, boa parte das minhas leituras sobre modelos, decisões e sistemas complexos passava por nomes como John von Neumann, John Nash e a Teoria dos Jogos.

Mas hoje começo a suspeitar que a economia talvez não seja um sistema concorrente. Ela própria existe dentro de um sistema maior, condicionado pela dinâmica da atmosfera, da água, da energia e do clima.

Mercados influenciam sociedades. Secas reorganizam mercados. Enchentes alteram cadeias produtivas. Eventos extremos redefinem prioridades econômicas. A economia influencia a sociedade. O clima influencia a economia. E ambos influenciam a forma como produzimos, compartilhamos e interpretamos informações. Talvez a questão não seja descobrir qual desses sistemas governa o outro. Talvez seja compreender como eles interagem.

Desde que comecei a explorar o universo das Ciências Atmosféricas, o que mais tem me impressionado não é a presença da Matemática em si — eu já esperava encontrá-la por toda parte. O que me impressiona é a quantidade de conexões que ela revela. Por trás de um mapa climático existem observações distribuídas pelo planeta inteiro. Por trás de uma previsão sazonal existem modelos físicos, estatísticos e computacionais. Por trás de uma decisão relacionada à agricultura, aos recursos hídricos, à geração de energia, à defesa civil ou ao planejamento público existe uma longa cadeia de produção de conhecimento.

Durante as apresentações de hoje, ouvi falar sobre comunicação climática, Ciência, Tecnologia e Sociedade, monitoramento do Pacífico Equatorial, El Niño, anomalias da temperatura da superfície do mar e projeções para os próximos meses. Em vários momentos tive a sensação de estar observando um enorme arcabouço intelectual funcionando diante dos meus olhos. Uma engrenagem construída por gerações de cientistas, observadores, matemáticos, físicos, químicos, programadores, meteorologistas, engenheiros e instituições espalhadas pelo mundo.

Talvez seja isso que mais me encante. A percepção de que compreender o tempo não é apenas compreender a atmosfera. É compreender sistemas. É compreender relações. É compreender escalas. É compreender incertezas. É compreender conexões. Uma fala da professora Clênia também ficou ressoando na minha cabeça ao longo do dia. Ela comentava como a desinformação frequentemente explora mecanismos psicológicos muito antigos do comportamento humano: gatilhos de sobrevivência, alarmismos, sensacionalismos, estratégias de clique e de engajamento.

Isso me fez lembrar de algo que vinha lendo recentemente na biografia de John Nash. À primeira vista, teoria dos jogos e previsão climática parecem assuntos distantes. Mas, naquele momento, comecei a enxergar uma conexão entre eles. Nash, von Neumann e tantos outros matemáticos dedicaram parte de suas vidas a entender como as pessoas tomam decisões, cooperam, competem, negociam e respondem a incentivos.

No fundo, talvez a pergunta seja parecida. Como sistemas complexos se comportam? Em um caso, o sistema é formado por massas de ar, oceanos, energia e umidade. No outro, por pessoas, instituições, interesses, medos, expectativas e informações. Talvez uma das grandes questões do nosso tempo esteja justamente na interação entre esses dois universos.

A atmosfera produz fenômenos. A ciência produz modelos. A comunicação produz interpretações. As pessoas produzem decisões. E todas essas camadas passam a interagir simultaneamente.

Começo também a suspeitar que existe uma relação mais profunda entre sistemas naturais, comportamento humano, informação, tomada de decisão e alguns dos temas que há anos me atraem na Teoria dos Jogos.

Ainda não consigo formular essa ideia com clareza. Mas ela apareceu diversas vezes ao longo deste primeiro dia. Em pouco tempo de contato com a Meteorologia já percebo um corpo de conhecimento muito maior do que eu imaginava. Ela não trata apenas da previsão do tempo. Ela conecta observação, modelagem matemática, computação, comunicação científica, gestão de riscos, recursos naturais, planejamento público e tomada de decisão.

Talvez por isso esta nova jornada me pareça tão familiar.

Aos poucos, começo a perceber a Meteorologia como uma ponte entre a abstração matemática que sempre me fascinou e a realidade concreta que ela procura descrever. Talvez seja justamente isso que tenha me atraído tão rapidamente: ela transforma modelos em previsões, previsões em decisões e decisões em consequências observáveis no mundo real.

Talvez ela não represente um desvio em relação aos caminhos que venho percorrendo há tantos anos. Talvez seja uma continuação.

Talvez meus interesses por classificação do conhecimento, enciclopédias, história da ciência, Matemática, modelagem, linguagem, representação do conhecimento, comunicação científica e observação da realidade já estivessem apontando para este encontro muito antes de eu perceber.

Por isso, saí do primeiro dia pensando não apenas no curso de Meteorologia, mas também nos projetos que venho construindo e os estudos sobre modelos, sistemas e representação do conhecimento. Todos eles parecem ganhar novos significados quando observados a partir dessa perspectiva.

Talvez uma das tarefas dos próximos anos seja justamente aprender a traduzir essa enorme engrenagem intelectual para linguagens que mais pessoas possam compreender.

Transformar dados em informação. Transformar informação em conhecimento. Transformar conhecimento em compreensão. E transformar compreensão em melhores decisões.

Ainda estou no começo dessa caminhada. Saio do primeiro dia com mais perguntas do que respostas.

E talvez essa seja a melhor definição possível de um bom começo.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *